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A mostrar mensagens com a etiqueta desafio nº 29

Zelinda Baião - desafio 29

Era um amor improvável. Para alguns, até reprovável. Nunca se tinham visto apesar de viverem lado a lado há já algum tempo. Agora que estavam juntas percorreu-as um calafrio e, no ar, ficou um aroma a menta que uma delas exalava. Foi um amor ao primeiro toque. Doravante inseparáveis iriam aproveitar cada instante. De manhã e à noite eram agarradas e manuseadas freneticamente. Não se importavam! No copo, escova e pasta faziam as delicias: uma da outra! Zelinda Baião , 55 anos, Linda-a-Velha Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Álvaro Aparicio e Marcos Montes - desafio 29

Eu era o elegante papel de um presente que os colegas ofereceram ao Manuel. Um livro foi embrulhado em mim. Nessa época, o livro e eu fomos muito felizes. Ele era Cem anos de solidão. Ao início, eu sentia-me muito admirado, toda a gente olhava para mim, era a parte visível do presente. Quando fui rasgado, perderam a admiração por mim. Comecei a sentir-me sozinho. Mas agora, depois de superar as penas, sinto-me livre como o mar. Álvaro Aparicio, 25 anos e Marcos Montes , 18 años, Salamanca, USAL, professora Paula Isidoro Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Eli Misa Valverde e Elvira Estévez Flores - desafio 29

Uma família estava à espera do nascimento duma menina. Finalmente, o pai comunicou que tudo tinha corrido bem e muito contente abriu uma garrafa de champanhe para celebrar o nascimento. Depois da festa esqueceram-se da garrafa e ela sentiu-se muito triste porque achava que era o final da sua vida, mas acabou por ser surpreendida pois pode reciclar-se e encontrou outras companheiras como ela no lixo. Ficaram todas felizes porque sabiam que outra vida estava para vir. Eli Misa Valverde e Elvira Estévez Flores , 18 anos, Salamanca, USAL, professora Paula Isidoro Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Soichiro Nakayama e Sulema Chulde - desafio 29

Era uma garrafa que estava tranquila numa festa de “botellón”. Sentia que o final se aproximava. Já não tinha nenhuma esperança e sentia-me deprimida, sozinha, triste, vulnerável e torturada. Também me sentia ameaçada porque passava de mão em mão. De repente caí ao chão e senti uma dor muito forte. O final chegou e pensei no suicídio, já não queria viver mais, assim foi como acabei deitada ao lixo. A partir desse momento, transformei-me em pedacinhos inúteis. Soichiro Nakayama e Sulema del Pilar Anchaluisa Chulde , 19 anos, Salamanca, USAL, professora Paula Isidoro Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Katie e Julie Vieira - desafio 29

Um homem estava caminhando pelo parque, comeu um caramelo e deitou fora o papel que caiu na terra. Uma mulher pôs os pés encima dele, escorregou e caiu, o papel acabou rasgado partindo-se o seu coração, mas voando chegou a outro lugar onde encontrou outro papel: foi uma maravilhosa história de amor. Agora, têm dois filhos e uma filha: papel 1, papel 2 e papel 3, moram numa casa linda com muitas janelas e nenhum lixo. Katie e Julie Vieira, 19 anos, Salamanca, USAL, professora Paula Isidoro Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Isidro Alcalá Cabaña - desafio 29

Era uma vez um anel e uma caixinha que se separaram. Ao princípio, a caixa sentia-se sozinha porque o anel encontrara uma pessoa com quem partilhar momentos bonitos e não a recordava. O anel sentia-se muito satisfeito com a pessoa com quem estava. Mas finalmente, a caixa encontrou um novo objeto com quem partilha bons momentos. Assim cada um tem a sua própria vida e são muito felizes: a caixa, na praia e o anel no deserto. Isidro Alcalá Cabaña, 18 anos, Montijo, USAL, professora Paula Isidoro Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Elisabeth Oliveira Janeiro - desafio 29

A Caixinha Há dias que nascem um pouco enviesados, influenciando o humor de cada um. Foi num desses que Cristovinho, um menino lindo e esperto, se viu em apuros para encontrar a sua caixinha. A de lápis de cor, ela própria colorida que nem dia de festa. Tantos desenhos, com aqueles mágicos lápis... Peregrinou por toda a casa, mas nada. Desanimado e cabisbaixo, tropeçou, indiferente, num objecto caído. Olhou por olhar, mas oh, surpresa: era a sua amada caixinha! Elisabeth Oliveira Janeiro , 73 anos, Lisboa Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Carla Silva - desafio 29

O desgosto Sempre os vira juntos, por isso nunca tal lhe chamou a atenção. Mas agora, ao olhar detalhadamente para a chávena, percebia que o fio dourado não brilhava com o mesmo esplendor de outrora. Aliás, perdera o brilho totalmente, desde que o pires saíra do loiceiro pela mão da pequena Cátia e não regressara.  Ela própria sentia a tristeza da chávena, compreendia a falta que ela sentia do seu companheiro, do amor de toda a vida... como compreendia! Carla Silva , 44 anos, Barbacena, Elvas Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Amália da Mata e Silva - desafio 29

Era um amor lindo aquele que os unia. Sempre juntos. Ele, esbelto e singelo; ela, muito cómoda e colorida. Viviam em comunhão num canto da despensa ou numa gaveta da cozinha. Mas, que importava o lugar onde estavam? Desde que estivessem juntos, estavam bem... Nada valiam se estivessem separados. Até quando ele, rebelde, queria dar uma escapadela, não funcionava porque deixava de ter utilidade e voltava para ela que, para o castigar, lhe fazia arder a cabeça. Amália da Mata e Silva , 62 anos, Vila Franca de Xira Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Paula Castanheira - desafio 29

Sou Lancheira Castanheira e com muito gosto! Os últimos tempos não têm sido fáceis. Sim, já fui muito feliz, quando todas as manhãs, acompanhava a minha amiga Marmita Catita e juntas transportávamos o almoço da Maria. Sentia-me útil e os dias corriam divertidos. Porém, subitamente, separaram-me da minha companheira, levaram-na assim… e tudo mudou! Estou dececionada com os humanos! Somos objetos, mas temos sentimentos. Não podem servir-se de nós e sem aviso deitarem-nos no lixo. Haja respeito, ok? Paula Castanheira , 53 anos, Massamá Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Isabel Lopo - desafio 29

Há muito que a Chávena estava apaixonada pelo Bule. O Pires bem a avisara que ele era um pinga-amor... Mas ela tanto fez para lhe agradar que começaram namoro. As outras, as invejosas, faziam troça dos seus dourados fora de moda. Então resolveram empurrá-la... Salvou-a a Dona da Casa mudando-a de armário. Foi quando o Bule, saudoso, lhe propôs casamento. Mas só na noite da consoada se conseguiram juntar. Promessa cumprida: casaram tendo o pires como padrinho... Isabel Lopo , Lisboa Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Helena Rosinha - desafio 29

Azul Era um pente tão azul, tão azul, que se confundia com os olhos de Lucinha. Apesar da idade (a falta de dentes não enganava), lá estava ele, diariamente, retocando o cabelo das clientes. De todas, Lucinha era a preferida, a sua paixão. Acariciar-lhe os longos, negros fios... oh, puro deleite! Sofrimento atroz foi ouvi-la ordenar naquele dia: “Rapado, à Sinéad O’Connor!” Traído, trocado pela reles  Philips ! No lixo, cabelos negros e pente azul tocaram-se pela última vez. Helena Rosinha , 65 anos, Vila Franca de Xira Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Sara Garizo - desafio 29

Conheceram-se num dia de trabalho e foi amor à primeira vista. Eram jovens, bonitos e apresentavam-se impecavelmente vestidos. Quando deram o primeiro beijo, Afia sentiu borboletas na barriga e Lápis chegara a casa. Os beijos foram aumentando na proporção inversa que a vida de Lápis foi diminuindo. A ausência de espaço em cada encontro adensava a sua vida, que se ía encolhendo até ao bico. De um último beijo ficaram aparas infinitas, em espiral sobre si mesmas. Sara Garizo , 42 anos, Madalena Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Quita Miguel - desafio 29

Livros Há anos, que livros são, por preferência, bens que me possuem. A cada página me realizam, desde que estejamos na zona da ficção e no tempo atual, salvo raras exceções. Os livros mais conceituados, por alguns prémios e críticos, são aqueles que ficarão esquecidos por mim, pois acho-os, em geral, chatos e cansativos. Do que gostaria? Cavaquear com um livro, abrir o coração às suas páginas que me adoçam a alma e terminá-lo com uma visão iluminada. Quita Miguel , 58 anos, Cascais Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Glória Vilbro - desafio 29

Em jovem o meu pai montava a cavalo. Quando deixámos África, ele quis trazer recordações das distantes cavalgadas. Abrimos o caixote ( contentor , como dizíamos) e lá estavam as botas, esporas, estribos, luvas... No meio destes objectos deformados pela humidade, e molhados de saudades, não encontrámos a sela. Então foi como se esta ausência doesse mais do que a falta do cavalo, do capim e da cacimba. A sela perdera-se das recordações, alcançando assim a glória da eternidade. Glória Vilbro , 50 anos, Negrais, Almargem do Bispo - Sintra Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Ana Paula Oliveira - desafio 29

Vivi sempre despojado de tudo até que ela, dourada e brilhante, se colou a mim num momento mágico. E nada mais nos separou. Nem a água, nem o sabonete, nem o creme amaciador, nem a areia na praia. Unidos para sempre, tinha ouvido. Mas, tudo mudou, trinta anos depois, e hoje ela foi-me retirada abruptamente. Foi depois da saída do tribunal e ainda não me habituei à ideia de ficar novamente nu. Dedo anelar de recém-divorciada sofre! Ana Paula Oliveira , 57 anos, S. João da Madeira Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Constantino Mendes Alves - desafio 29

Era o candeeiro, era a secretária. Quando apagado, ela sombreava de medo. Assustada, mesmo calada, suspirava. Ele fechado, aturdido, sem fontear, exasperado, só, perdido. Algo, como uma mão, clicava, eis um mundo acendido. Era doce o seu paladar espalhado naquele côncavo plano. Ela refletia, em lágrimas, brilhava. Que alegria, um diálogo tão intenso que a pele de uma mão arrepiava de emoção. Que romântico matrimónio, era só luz e madeira, mas não me enganem, havia alma verdadeira. Constantino Mendes Alves , 59 anos, Leiria Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Elsa Alves - desafio 29

Copos em fila. Canecas penduradas. Alguém abriu a porta do armário e arrumou uma chávena, em lugar de destaque. As canecas olharam-na com inveja; os copos com desdém. O mais alto mirou aquela nova hóspede. Aproximou-se dela. Meteu conversa :" Lágrimas? Por seres diferente? Anima-te... É tão sexy essa tua forma arredondada..." A chávena fungou. Mirou-o, de cima a baixo. Achou-o maravilhoso. O copo inclinou-se para ela, corada, embevecida. E assim trocaram o seu primeiro beijo de amor... Elsa Alves , 69 anos, Vila Franca de Xira Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Susana Santos - desafio 29

Infelizmente, a sua doce existência terminara... o Joãozinho saboreava o último bombom. Agora, aquela caixinha em forma de coração, previa angustiada que, vazia, sem o especial conteúdo achocolatado, o destino reservar-lhe-ia um repulsivo contentor de lixo. Mas, os seus prognósticos falharam completamente. O Joãozinho, utilizando cola, tinta, cartolina e conchas, transformou a caixinha num guarda-jóias; recorrendo à arte da decoupage, ofereceria um presente de aniversário especial à mãezinha! A caixinha, mesmo sem bombons, assegurou uma vida açucarada! Susana Sofia Miranda Santos , 38 anos, Porto Escritiva nº 29  – história de amor de objectos

Filomena Galvão - desafio 29

Sentia-se só, muito só e triste. O velho casaco felpudo de lã grossa era o seu aconchego e era também com ele que a menina gostava de se envolver e se enroscar no sofá. Caíra e esperava agora impacientemente que ela o voltasse a coser. Era um pequeno e redondo botão de madrepérola. De repente, sentiu a agulha a trespassá-lo, a linha a deslizar, a prendê-lo à carcela da lã. Que felicidade, estava de novo em casa! Filomena Galvão , 57 anos, Corroios Escritiva nº 29  – história de amor de objectos